manifesto


E VOCE, O QUE FAZ NA VIDA?

OQUE apresentamos vai contra os ate hoje validos principios dos Desempregados Felizes, os quais nao gostam de começar pela teoria. Preferem, em qualquer caso, a propaganda pelo facto, o delito, e sobretudo o nao-facto. O certo e que, nao existem resultados crediveis ou outros, de investigaçao no campo do desemprego feliz, susceptiveis de serem apresentados aqui Mas, encontramos, pelo menos, algumas explicaçoes, porque os rumores - que ja faziam que os Desempregados Felizes gozassem de certa notoriedade secreta - nao precisam de mal entendidos. Mal entendidos, incluso, acerca de aspectos fundamentais, quer dizer acer ca da felicidade e, tambem, do desemprego.
Para começar, quando se fala de felicidade, o assunto torna-se, de imediato, escabroso. A felicidade e irresponsavel. A felicidade e um sentimento burgues. A felicidade e anti- em qualquer lingua e em qualquer povo. E, alem disso, como se pode ser feliz tendo em conta a miseria, a violencia e as carcaças que agora custam 67 pennis ainda que resultem ser pouco mais que insipidas bolas cheias de ar.
Paul Watzlawick ja deu uma no cravo ao escrever no seu livro: "El Arte de Amargarse a Vida" ("A Arte de Amargarmos a Vida"):
"Que tal se fossemos absolutamente inocentes do pecado original? Se nada nem ninguem nos pode culpar de colaboraçao? Nao restam duvidas que, neste caso, somos puras vitimas. Que ninguem se atreva, entao, a questionar o meu estatuto de sacrificado ou a pedir que remedeie a minha desgraça. O que me foi infligido por Deus, o mundo, o destino, a natureza, os genes e hormonas, a sociedade, os pais, os parentes, a policia, os professores, os medicos, os chefes e, todavia pior, pelos amigos, e tao injusto e causa tanta dor que so com o insinuar, que pudesse fazer algo contra, e acrescentar o insulto ao ultraje. E, alem disso, nao e cientifico."
Para nos prolongarmos mais sobre este tema, teriamos que chafurdar no lamaceiro da psicologia, e que Deus nos livre disso! Mas, cruzamo-nos com outros argumentos, que sao contrarios ao afa da felicidade. Diz-se, por exemplo, que o totalitarismo consiste em querer fazer feliz as pessoas contra a sua propria vontade. A respeito disso, nao e preciso preocuparmo-nos demasiado: os Desempregados Felizes nao sao charlataes que pretendam impor alguma forma de felicidade aos demais. No plano programatico, vemos as coisas tal como Lautreamont o formulou para si mesmo em 1869:
"Ate agora, tem-se descrito a desgraça para inspirar terror e lastima. Vou descrever a felicidade para inspirar o contrario.".
Mas, vamos ao grao.

O DESEMPREGO: E UM PROBLEMA OU UMA SOLUÇAO?

TODOS sabemos que ja nao se pode abolir o desemprego. Se a empresa funciona mal, despedem-se os trabalhadores. Se marcha bem, investe-se na automatizaçao e despede-se da mesma forma. Antes, era preciso mao-de-obra, porque havia trabalho. Agora necessita-se, desesperadamente, de trabalho porque sobra mao-de-obra e ninguem sabe o que fazer com ela, ja que as maquinas trabalham mais depressa, melhor e mais barato.
A automatizaçao sempre foi um sonho da humanidade. Ha 2300 anos, o Desempregado Feliz, Aristoteles, ja dizia:
"Se cada ferramenta pudesse cumprir, por si so, a sua funçao; se, por exemplo, a agulha do tear pudesse trabalhar sozinha, o mestre nao necessitaria de nenhum ajudante e o amo de nenhum escravo."
Hoje, ja se realizou este sonho, mas em forma de pesadelo para todos, porque as relaçoes sociais nao mudaram tao depressa como a tecnologia. Nao obstante, este processo nao tem recuo, marcha atras possivel: robots e maquinas nunca mais serao substituidos por trabalhadores. E, alem disso, quando e necessario ou se pretende uma maior renda, mais-valia, muda-se o trabalho "humano" para paises onde a mao-de-obra e mais barata, ou sao usados trabalhadores imigrantes muito mal pagos. Semelhante espiral descendente so poderia ser detida pelo restabelecimento da escravidao.
Todo o mundo sabe, mas ninguem o pode dizer. Desde a oficialidade - instituiçoes, para-instituiçoes e a propria vitima - lançam-se na "luta contra o desemprego" mas, na realidade, lutam, unicamente, contra os desempregados. Para isso, falsificam as estatisticas, "ocupam" - no sentido militar da palavra - os desempregados, e exercem controlos sem fim para os enfastiar. E, como estas medidas, nunca acabam por convencer, acrescentam a moral e pedem ao desempregado que assuma que e ele que tem a culpa da sua situaçao, exigindo-lhe provas de "procura activa de trabalho". Tudo para moldar a realidade a propaganda. Mas chega o Desempregado Feliz e diz alto o que todo o mundo ja sabe.
"Desemprego" e, desde logo, uma palavra chunga "inutil", um termo com conotaçoes negativas, a outra face da moeda trabalho. Um desempregado nao e mais do que um trabalhador sem trabalho. Nao se diz nada acerca desta mesma pessoa como poeta, passeante, buscador, respirador. Em publico, so se pode falar de falta de trabalho. So no ambito privado, sem reporteres, sociologos ou outros espias presentes, podemos atrever-nos a sermos honestos:
"Despediram-me, filhos da puta! Por fim vou ter tempo para me divertir, ir a festas todas as noites e ja nao terei de comer a pressa os pratos requentados no microondas e poderei foliar sem travoes."
Deveria superar-se esta separaçao entre sabedoria privada e mentira publica? Dizem-nos que nao e o momento oportuno para criticar o trabalho, que seria uma provocaçao, que venderiamos perolas a porcos. Ate ha vinte anos, os trabalhadores poderiam questionar o seu trabalho em geral. Hoje, simplesmente, porque nao estao desempregados, tem que fingir satisfaçao. E os desempregados tem que dizer que estao insatisfeitos so pelo facto de nao terem trabalho. Assim se dissolveu a critica do trabalho. O Desempregado Feliz ri-se de semelhante chantagem.
Onde se perdeu a etica do trabalho fica o medo ao desemprego como melhor chicote para aumentar o servilismo. [...]
Em troca, estabelecer um ambiente propicio aos Desempregados Felizes contribuiria, tambem, para melhorar a situaçao dos trabalhadores: o seu medo de continuar desempregado diminuiria e a coragem para dizer "nao" poderia expressar-se mais livremente. Quiça, um dia, a correlaçao de forças voltara a ser favoravel para os trabalhadores.
"O que? Querem controlar-me durante a minha baixa por doença? Se e assim, prefiro juntar-me aos Desempregados Felizes.".
O trabalho e uma questao de sobrevivencia. Ninguem nem nada o pode negar. Eis o que diz sobre o assunto, Bob Black, nos Estados Unidos:
"O trabalho e um crime em serie, um genocidio. [...] Segundo as estatisticas, neste pais, o trabalho mata entre 14 e 25 mil pessoas por ano. Mais de dois milhoes foram e ficaram mutiladas ou conservam as suas sequelas. E isto, sem contar, com os 500 mil trabalhadores que sofrem de enferrnidades profissionais, nem os acidentes de trafego quando vao para o trabalho ou voltando dele ou procurando um ou, ainda, procurando nao pensar nele... Sem contar, tao pouco, as vitimas da contaminaçao, do alcoolismo ou do consumo de drogas ligadas ao trabalho. Assim, ter-se-ia de multiplicar por seis o numero de assassinados. E, tudo aquilo que serve, somente, para poder continuar a vender big macs e cadillacs aos sobreviventes."
O sapateiro ou o carpinteiro orgulhavam-se da sua arte. Antigamente, os trabalhadores dos estalelros - locais onde se construiam barcos - podiam emocionar-se ao ver zarpar o barco que haviam construido. Esta sensaçao de ser util a comunidade ja nao existe em 95% dos trabalhos. O sector "serviços" so emprega peoes intercambiaveis atados aos seus ordenadores, que nao tem qualquer razao para se sentirem orgulhosos. O sector "cao de guarda", com as suas policias, guardas ajuramentados e tecnicos de sistemas de alarmes, e, praticamente, o unico que continua a crescer, mas a sua utilidade social e bastante limitada: vigiar o que, sem eles, poderia ser gratuito. Inclusive, um medico, funciona cada vez mais como representante/vendedor dos grandes consorcios de medicamentos, laboratorios farmaceuticos.
Quem e que, hoje em dia, pode dizer que se sente util para os demais? A questao ja nao e: para que serve esta coisa; mas sim: quanto se pode ganhar com ela. O unico objectivo da produçao e aumentar os ganhos da empresa. Em consequencia, a unica relaçao do trabalhador com o seu trabalho e o seu salario.

O DINHEIRO E O PROBLEMA

ODESEMPREGO existe, justamente, porque o dinheiro e a verdadeira finalidade e nao a utilidade social. O pleno emprego significa crise economica. Em troca, o desemprego, faz o mercado economico sao. O que se passa?
Quando uma empresa anuncia que extinguira X postos de trabalho, todos os que especulam na Bolsa louvam a sua eslrategia de saneamento, as acçoes sobem e, de imediato, far-se-a um balanço positivo dos seus beneficios de forma a que os desempregados participem no aumento dos ganhos mais do que os seus ex-colegas de trabalho. Seria logico, entao, premia-los pela sua contribuiçao, sem igual, para o desenvolvimento economico. Pelo contrario, o desempregado nao recebe nem um pimento desta riqueza que criou. Desta forma, o desempregado feliz pensa que deveria ser remunerado pelo seu nao-trabalho.
Em seguida, referimo-nos a Kasimir Malevitch, o valente criador do "Quadrado Negro Sobre o Fundo Branco". Corria o ano de 1921 quando escreveu o seu livro: "A Preguiça: Verdadeira Meta da Humanidade", que foi publicado em russo, unicamente, ha dois anos:
"O dinheiro nao e outra coisa que um pedacito de preguiça. Quanto mais se tem daquele, tanto mais se podera disfrutar das delicias desta. [...] Sob o capitalismo, o trabalho e organizado de tal maneira que nao facilita o acesso a preguiça a todas as pessoas por igual. So podem goza-la os que possuem capital. Assim, a classe dos capitalistas livrou-se deste trabalho do qual, agora, se tem de libertar, toda a humanidade."
Se o desempregado e infeliz, nao e porque nao tenha trabalho, mas sim porque nao tem dinheiro. Desta forma ja nao deveriamos falar de "procura de emprego" mas sim de "procura de dinheiro", nem de "procura activa de emprego" mas sim de "procura activa de dinheiro", para por as coisas no seu lugar. Como iremos ver na continuaçao, o Desempregado Feliz pretende amenizar esta carencia com a busca de recursos obscuros.
Calculem quanto dinheiro destinam, no total, "ao desemprego" os contribuintes e as instituiçoes, e dividam a soma obtida pelo numero de desempregados: A ver…, ai se vislumbram, indubitavelmente, muitissimos mais zeros dos que encontramos nas nossas contas correntes. Nao e verdade?
O grosso do que se gasta nao e para o bem estar dos desempregados, mas para um mesquinho controlo, chamadas inuteis, supostos programas de formaçao que saem de nenhuma parte e que terminam em nada, pseudo-trabalhos por um pseudo-salario…, e tudo isso com o unico proposito de fazer baixar artificalmente as estatisticas. Tudo para manter as aparencias de uma quimera economica.
A nossa primeira proposta pode ser levada a pratica, em seguida: por fim a todas as medidas de controlo contra os desempregados, fechar todos os departamentos do INE - Instituto Nacional do Emprego, das estatisticas e de propaganda (esta e a nossa contribuiçao para a reduçao dos gastos publicos) e fazer participar nos subsidios os desempregados, automatica e incondicionalmente, incluindo todas as somas aforradas para controlo.
O novo delirio conservador reprova aos desempregados viver a expensas do Estado-Providencia. Bom, mas como muito bem sabemos, o Estado ainda continua a existir e tambem cobra impostos. Por isso nao vemos nenhuma razao pela qual deveriamos renunciar ao seu apoio. Ainda que nao estejamos obcessionados com o Estado: em nosso entender, o salario do Desempregado Feliz poderia ser financiado pelo sector privado, seja atraves de responsaveis, de adopçao, de impostos sobre o capital, ou tambem de chantagem. Nao temos preferencia.
O desempregado e tambem infeliz porque o unico valor social que conhece e o trabalho. Ja que nao tendo nada que fazer, aborrece-se. Ja nao tem contactos, porque o trabalho e, com frequencia, a unica possibilidade de se relacionar. E o mesmo vale tambem para os reformados. Mas, a causa desta miseria existencial e, decerto, o trabalho e nao so o desemprego.
O Desempregado Feliz introduz novos valores sociais, ainda que isto seja a sua unica façanha. Desenvolve contactos com gente simpatica que vive a custa alheia. Declara-se, inclusive, disposto a repartir cursos de resocializaçao para trabalhadores despedidos.
Acontece assim, porque todos os desempregados dispoem de uma coisa que nao tem preço: tempo. A isto poderiamos chamar uma sorte historica, a possibilidade de viver uma vida plena de sentido, alegria e razao. Pode-se definir o nosso objectivo como uma reconquista do tempo. Estamos, entao, todos menos inactivos, quando a "populaçao activa" so lhe resta obedecer passivamente aos designios e ordens dos seus superiores hierarquicos. E e porque somos activos que nao temos tempo para trabalhar.
Jacques Mesrine - inimigo numero um do Estado frances e autor do livro "El Instinto de Muerte" ("O Instinto de Morte") - tomou, um dia, esta decisao:
"Nao queria que a minha vida fosse planeada por outros. Quando as seis da manha tinha vontade de fazer amor, gostaria de Ihe dedicar tanto tempo como desejava, sem olhar para o relogio. Queria viver sem horas, porque com o medir do tempo chegou a primeira pressao sobre a vida dos seres humanos. As frases mais frequentes da vida quotidiana soavam na minha mente: ‹Nao tenho tempo para...›, ‹chegar a tempo›, ‹ganhar tempo›, ‹perder tempo›. Mas queria ‹ter tempo para viver›, e a unica possibilidade para o conseguir era nao me tornar escravo do tempo. Sabia o quanto irracional era a minha teoria e que com ela nao se poderia fundamentar uma sociedade. Mas, que tipo de sociedade e essa, com os seus bonitos principios e leis?"...

O CEMITERIO DA MORAL

REPLICAM-NOS que o Desempregado Feliz so e desempregado (sem trabalho) no sentido que hoje em dia o uso comum da a palavra "trabalho", que e, em definitivo, o trabalho assalariado. A isto temos que contestar, com firmeza, que o Desempregado Feliz nao procura trabalho assalariado mas tao pouco procura trabalho como escravo. E so ha, que saibamos, dois tipos de trabalho: o trabalho escravo e o trabalho assalariado. Bom, e verdade que tambem existem estudantes, artistas e outros que sao encarregados de marcar as faltas dos que trabalham que nao podem escrever ou rabiscar sobre qualquer papel sem presumir que estao fazendo um "trabalho" importante. Inclusive, os chamados "autonomos"* nao sao capazes de organizar um "seminario" anticapitalista sem chegar a "debates produtivos" em grupos de "trabalho". Palavras pobres para pensamentos pobres.
Nao vem de ontem a carga de desgraça que integra a palavra trabalho. Sempre a teve.
[...] Em alemao moderno, a raiz de arbeit significa "fadiga", "tormento", "actividade sem dignidade". Nas linguas latinas sabe-se que "trabalho", "trabajo", "travail", etc., proveem da palavra romana "tripalium", um instrumento de tortura com tres pes que se utilizava contra os escravos. O valor espiritual do trabalho como predestinaçao do ser humano neste mundo, foi promovido por Lutero: "O homem nasceu para trabalhar como o passaro para voar".
Alguns opinam que estabelecer discussao sobre o sentido de uma palavra e procurar cinco pes ao gato. Mas confundir-se a palavra "bebida" com "Coca-Cola", a palavra "cultura" com "Carmen Sevilla" ou, inclusive, "actividade" com "trabalho", nao deixaria de ter graves sequelas.
Quando falamos de trabalho ou de desemprego, tratamos com categorias morais. Esta tendencia agudiza-se dia-a-dia. Basta, para isso, ler os periodicos para nos darmos conta disso.
"Uma concepçao do mundo venceu outra", vangloriza-se um tecnico de Washington. Em vez de considerar que a pobreza tem causas economicas, a nova escola de pensamento, que predomina agora, considera que a pobreza e consequencia de um comportamento moral erroneo.
Isso tem a ver como quando os clerigos viram ameaçado o seu monopolio sobre o espirito, a moral passou a ter outra significa,cao para eles e agora so serve para por pachos de agua quente sobre a ruptura que se vai desenvolvendo entre a realidade e a sua imagem ideologica. Aqueles que dizem a um desempregado: "Pecaste", esperam que ele faça penitencia ou de provas de boa vontade. Em ambos os casos, tera reconhecido a existencia da sua culpa. Os esforços lamentosos para provocar a compaixao deste mundo provocarao, quando muito, lastima.So um riso superior podera, seriamente, fazer tremer a moral.
E claro que, Paul Lafargue, genro de Karl Marx e autor do "Direito a Preguiça", e um modelo historico para o Desempregado Feliz:
"Os economistas nao tem descanso a animar os trabalhadores: Trabalhai!, para que cresça a riqueza nacional". E, sem embargo, foi um deles, Destutt de Tracy, que disse:
"As naçoes pobres sao aquelas onde o povo vive a contento. Nas na,coes ricas o povo encontra-se, normalmente, miseravel."
Mas, idiotizados e ensurdecidos pela sua propria gritaria, os economistas continuam a responder: "Trabalhai, proletarios, trabalhai; multiplicai a riqueza nacional e, atraves dela, a vossa miseria pessoal. Trabalhai para que, cada vez mais pobres, tenhais mais razoes para trabalhar e ser miseraveis."
Sem duvida, nao pedimos nenhum direito a pregui,ca. A preguiça, ao fim e ao cabo, nao deixa de ser mais do que o contrario do empenho. Onde nao se reconhece o trabalho, a preguiça perde o seu sentido. Nao ha vicio sem virtude. Desde o tempo de Lafargue que se comprovou que o "tempo livre" concedido ao trabalhador, a maioria das vezes, provoca muito mais aborrecimento do que o proprio trabalho. Nao e suficiente, portanto, reduzir o tempo de trabalho e aumentar o tempo livre. Quem quer viver entre tv's, jogos interpassivos e viagens organizadas? Em troca, solidarizamo-nos a cem por cento com aqueles trabalhadores espanhois que, quando ainda ha pouco se quis acabar com a sesta, em Espanha, sob o pretexto de que ameaçava o mercado europeu, opinaram que, pelo contrario, era a Uniao Europeia que deveria introduzir a Euro-Sesta.
Ha que esclarecer que, o Desempregado Feliz, nao apoia os partidarios da reduçao do horario de trabalho, e pensam que o problema se resolveria se cada um continuasse com o seu trabalho, mas so com, 5, 3, ou 2 horas diarias.
Que carapuça e esta?
Olho para o relogio quando preparo um almoço para os amigos?
Acaso estou dependente do tempo quando me dedico a escrever este maldito texto?
Calcula-se o tempo quando se faz amor?
Mas, atençao!, isto nao quer dizer que o Desempregado Feliz seja uma nova utopia. Utopia significa "lugar nao-existente". O utopico desenha os planos exactos de uma suposta construçao ideal e espera que o mundo se amolde a ela. Ao contrario deste, o Desempregado Feliz e um "topista": tacteia e experimenta os lugares e coisas que tem ao alcance da mao. Nao elabora nenhum sistema, senao que investiga todas as possibilidades para melhorar a sua volta.
Uma pessoa honrada escreve-nos:
"O Desempregado Feliz anseia um reconhecimento social com o financiamento sem condiçoes que o acompanha?, ou melhor, procura subverter o sistema atraves de acçoes ilegais, como, por exemplo, furar os contadores da luz?** A combinaçao das duas estrategias nao parece logica: posso, dificilmente, exigir aceitaçao social e ao mesmo tempo fomentar o ilegalismo."
Bom. O Desempregado Feliz nao e nenhum fanatico da ilegalidade. E tal o seu afa de fazer o Bem que esta, inclusive, disposto a faze-lo atraves de meios legais. E tem mais: o que hoje em dia e um direito, antes era um crime, como por exemplo, o direito a greve. E amanha pode voltar a ser considerado um crime. Falamos sobretudo de reconhecimento social. Nao nos dirigimos ao Estado nem aos organismos oficiais, senao a individuos singulares ou grupos que se interessam pela Questao Social.
Ai, ja escutamos o coro dos teoricos da luta de classes:
"Tudo isto e muito bonito mas nao e mais do que uma valvula de escape para o sistema, graças ao qual as franjas desocupadas do proletariado moverao as funçoes vitais que Ihes restam para regioes ilusorias, para assim amenizar as contradiçoes do capitalismo. Enquanto os Desempregados Felizes se divertem, a burguesia pode extrair a sua mais-valia sem ja encontrar resistencia. Traiçao! Traiçao!"
Cada passo andado e, ate mesmo, o simples facto de respirar, pode ser caluniado como veleidade de adaptaçao. Mas nao se trata de outra coisa: a possibilidade de respirar. A critica social, por mais aguda que seja, de pouco serve se a sua conclusao pratica nao passar de ser um eterno "sentar-se e ve-las passar".
Estamos conscientes de que o nosso intento pode fracassar por motivos diversos. Por exemplo, pode transformar-se numa brincadeira, numa zombaria sem consequencias. A ideia original pode tambem ser afogada sob toneladas de seriedade de cartolina. Tambem podera ocorrer que um grupito de Desempregados Felizes se torne tao famoso que se convertam em empresarios felizes sem relaçao alguma com a sua relaçao original. Aqueles sao riscos, mas sem nenhuma fatalidade. Agora que lançamos a bola, nao depende unicamente de nos, se acaba em golo ou nao.

A VANTAGEM DE SER EXCLUIDO

HOJE, brotam multiplos movimentos e iniciativas contra os recortes sociais, contra o desemprego, contra o neoliberalismo, etc. Mas a questao e: a favor de que nos deveriamos declarar? Seguramente que nao do Estado de Bem Estar e do pleno emprego, ja que a sua reinstauraçao e, de todos os modos, menos provavel que o regresso da locomotiva a vapor. E mais, o que nos espreita poderia resultar pior: nao seria nenhum disparate imaginar que se conceda um dia, aos desempregados, a possibilidade de cultivar verduras e improvisar relaçoes nos terrenos baldios ou nos vazadouros da pos-modernidade, vigiados a distancia por um policia High-Tech (armado de alta tecnologia) e entregues a uma qualquer mafia, enquanto a minoria rica continuaria com os seus assuntos sem mais preocupaçoes.
Os Desempregados Felizes procuram uma saida para esta terrorifica alternativa. Para nos, e uma questao de principios.
Outra palavra chave da propaganda oficial e a palavra "exclusao": os desempregados estariam excluidos da sociedade e as almas generosas advogam pela sua reintegraçao. Um humanista da Unesco explicou o que significa isto no "Vertice da Piramide Social" de Copenhague: "O primeiro passo para a integraçao social e ser explorado." Obrigado pelo convite!
Faz tres seculos, os camponeses levantavam os olhos com inveja para a casa do senhor. Com razao, sentiam-se excluidos das suas riquezas, da sua nobreza, do seu ocio, dos artistas da corte e das cortesas. Ora bem: Quem e que gostaria de viver como um executivo cheio de stress? Quem e que sonha encher a cabeça com os seus calculos de cifras sem sentido, rebolar-se com as suas secretarias tingidas de ruivo, beber os seus Bordeus adulterados e, rebentar, finalmente, com o infarte do miocardio?
Excluimo-nos, de boa vontade, desta abstracçao dominante. Outro tipo de integraçao e o que desejamos.
Nos paises pobres, milhoes de pessoas vivem a margem dos circuitos da economia de mercado. Todos os dias, os periodicos falam das pragas do Terceiro Mundo, da sua horrivel cadeia de famintos, ditaduras, guerras e enfermidades. Mas, apesar de tudo, nao se pode esquecer que ao mesmo tempo que se da esta miseria (a maioria das vezes importada), existe tambem outra realidade: uma vida intensamente social, apoiada em tradiçoes pre-capitalistas. Se se comparam com aquilo, as sociedades ocidentais parecem moribundas.
Ali, nessas sociedades, despreza-se o trabalho do homem branco porque nao tem fim - mas, pelo contrario, os artesaos somalis, por exemplo, cujos ganhos desbaratam rapidamente numa grande festa anual, o trabalho tem outro significado. A formula tornou-se famosa: quanto mais baixo e o Produto Interno Bruto por cabeça, tanto maior e a capacidade das pessoas para gozar.
O antropologo Serge Latouche escreve no livro "El Planeta de los Naufragos" ("O Planeta dos Naufragos"):
"A actividade informal evidencia que a solidariedade e uma forma de riqueza autentica. Por a sua pobreza em comum, com a esperança de obter abundancia, nao e irrealista. Os pobres sao muitissimo mais ricos do que se pensa e do que eles proprios pensam. A incrivel alegria de viver que assombra muitos observadores dos suburbios das cidades africanas resulta menos enganosa que os deprimentes calculos objectivos das instituiçoes estatisticas, que so tomam em consideraçao os parametros ocidentais da riqueza e da pobreza."
Claro, para um europeu, existe o perigo de recriar-se num exotismo barato. Sem duvida, basta escutar o que contam os mesmos imigrantes, que conhecem por experiencia os dois mundos, para convencer-se da vantagem que tem o Sul quanto aos vinculos sociais.
O egipcio Albert Cossery, em "Mendigos y Orgullosos" ("Mendigos e Orgulhosos") diz:
"Nesse momento, a sua cara reflectia todas as preocupaçoes terrenas. Mas, este estado de animo, impunha-se a si mesmo, so de vez em quando, para nao perder a fe na sua dignidade. Porque El Koldi pensava que a dignidade so era fruto da desgraça e do desespero. A leitura de livros ocidentais havia transtornado a sua mente."
Os Desempregados Felizes podem aprender muito de Africa e de outras culturas. E, tambem, desaprender. Sem duvida, que nao se trata de imitar antigos habitos sociais, mas podemos encontrar neles uma refrescante fonte de inspiraçao. Ja assim o fizeram Picasso e os dadaistas quando se inspiraram na Arte Negra.
Aqui so mencionaremos um exemplo: faz alguns anos, um grupo de sociologos examinou a vida da populaçao do Grand Goff, um bairro pobre de Dakar, Senegal. Deram-se conta que o ganho real de uma familia media de doze pessoas e sete vezes maior do que os seus "recursos oficiais". Nao vamos acreditar que estas pessoas encontraram a formula magica para multiplicar por sete os cheques bancarios... Mas sabem aumentar o rendimento das suas precarias finanças organizando a sua intensa circulaçao. E impossivel viver em Africa sem pertencer a uma etnia, a um cla, a uma familia ampliada, a um circulo de amigos. Dentro de cada uma destas redes, o dinheiro esta submetido a uma circulaçao permanente, atraves de todo um sistema de dadivas, presentes, donativos, emprestimos e devoluçoes, inversoes, participaçoes em diversas "caixas de aforro" informais... Assim, cada membro do grupo pode dispor, para sair de uma dificuldade ou financiar um projecto, de uma soma muito maior que os seus magros recursos pessoais permitiam.
Alem disso, estes fluxos monetarios so sao um dos aspectos desta "economia da reciprocidade", a qual consiste, tambem, no intercambio de um sem fim de servicos, tais como: trabalhos de reparaçao, instalaçao e manutençao, fabricaçao de calçado e roupa, preparaçao colectiva de comidas, trabalho de metal e de madeira, serviços de saude e educaçao… sem esquecer a organizaçao de numerosas festas que fortalecem a unidade do grupo. Actividades, nas quais, o dinheiro nao joga qualquer papel.
E a razao pela qual resulta impossivel medir o "nivel de vida" dessas populaçoes com os criterios ocidentais.
Imaginemos, agora, que este sistema se aplicasse aqui: de repente, os que recebem subsidio, acabariam por dispor de sete vezes o seu valor! O que resolveria todos os problemas e, pelo menos, poderiamos aviar-nos, com mais frequencia, na mercearia... E, por cima, beneficiariamos de coisas que nao se podem comprar com dinheiro. Porque a pergunta: Quanto dinheiro necessito para viver bem? e insuficiente.
Quem vive totalmente isolado, num limbo a-social, jamais tera dinheiro suficiente para colmatar a sua miseria existencial.
Claro, aqui, na sociedade ocidental, do Estado de bem-estar, o beneficiario do subsidio, depara-se com um grande obstaculo: nao e apoiado por nenhum cla ou costume. Tudo tem que ser reinventado. Mas temos, pelo menos, uma vantagem: as nossas condiçoes de vida nao sao, todavia, tao duras como as dos africanos.
Diante dos Desempregados Felizes estende-se o campo aberto da experimentaçao. O que nos chamamos a "busca de recursos obscuros".
Como todos se terao apercebido, agora, a nossa relaxaçao e ambiciosa, a vez teorica e pratica, seria ludica, local e internacional (nada mais, aqui na Europa, existem ja vinte milhoes de desempregados felizes virtuais!).

Um dia, poderas dizer, com orgulho:
Vivi o começo!

Os Desempregados Felizes
Berlin, 1996
Lisboa, 1998

* Militantes radicais alemaes.
** Alude-se aqui, provavelmente, ao "freio bloqueador fixo para contadores electricos" uma das invençoes experimentadas pelos nossos laboratorios

Die Glücklichen Arbeitslosen